Negros ganham R$ 1,2 mil a menos que brancos em média no Brasil


Eliad e uma conhecida ficaram desempregadas na mesma época. Uma amiga em comum resolveu ajudar. Encaminhou uma vaga de coordenadora de um projeto social em uma instituição pública para a conhecida. Para Eliad, ofereceu trabalho na sua casa, como doméstica. Eliad é negra; a conhecida, branca.
“Quem tinha expertise para trabalhar como coordenadora de um projeto era eu. Mas eu fiquei ali como doméstica. Precisava trabalhar, tinha uma filha para sustentar. É assim que as coisas funcionam”, diz Eliad dos Santos, de 52 anos.
Eliad tem mestrado em Teologia e História, estudou na Universidade de Birmingham, no Reino Unido, e já assessorou e coordenou diversos projetos sociais, principalmente envolvendo temáticas de gênero e raça.
Por conta de sua alta escolaridade, ela acaba se sobressaindo em relação à média de negros no país, que têm índices de educação mais baixos. Mas afirma que, em muitas situações, o preconceito é mais forte que os seus diplomas. “O Brasil é muito cruel nesse sentido, desse racismo velado. É muito difícil mesmo”, diz.
De acordo com dados do IBGE obtidos pelo G1, os trabalhadores negros ganham cerca de R$ 1,2 mil a menos que os brancos em média. Os dados são do 4º trimestre de 2017 e fazem parte da Pnad Trimestral, que disponibiliza informações desde 2012. Os números mostram que, entre 2012 e 2017, não houve nenhuma mudança substancial na diferença de rendimento entre negros e brancos.
Especialistas apontam que desigualdades históricas estão por trás das grandes disparidades enfrentadas pelos negros no mercado de trabalho. O menor acesso à educação é um deles, bem como condições de vida mais precárias.
Salário médio dos brasileiros
Os negros, que são os pretos e os pardos, segundo classificação do IBGE, ganham bem menos que os brancos em média
Salário médio (R$)2.6972.6971.5431.5431.5261.526BrancosPardosPretos050010001500200025003000
Brancos
2.697
Fonte: Pnad Trimestral, 4º semestre de 2017, IBGE
O preconceito e o racismo são o outro lado dessa “herança” centenária, que remete, ainda segundo especialistas, ao período de escravidão.
Há exatos 130 anos, a prática de comprar e vender outras pessoas foi abolida do país com a Lei Áurea, assinada no dia 13 de maio de 1888. Os negros, porém, foram escravos no país durante mais de 300 anos, um período marcado por diversas revoltas, mas também pela naturalização da servidão, segundo Maria Helena Machado, professora da Universidade de São Paulo especialista na história social da escravidão.
“No Brasil, a escravidão permeou a sociedade toda. As pessoas viviam com a escravidão de maneira muito naturalizada. Quando uma sociedade é construída sob uma base dessas, a mudança é bastante longa e difícil, é árdua”, diz a professora.

“130 anos é muito pouco para um país onde todo mundo era dono de escravo”, diz Maria Helena Machado, professora da USP.

Segundo Cimar Azeredo, coordenador de Trabalho e Rendimento do IBGE, a desigualdade no país é histórica. “A forma como houve o processo de colonização do país mais esse processo de escravidão acabam por trazer uma herança muito forte”, afirma.
Segundo Azeredo, a forma como os escravos foram libertados em 1888, sem nenhuma política pública de apoio aos emancipados, diz muito sobre o processo de integração da população de cor preta ou parda na população. “A falta de acesso à educação vai remeter à entrada em postos de trabalho de baixa qualidade e à dificuldade de se inserir no mercado de trabalho.”
Essa herança, segundo Azeredo, fica clara nos números. Considerando os 10% da população com os maiores rendimentos no Brasil, 8 a cada 10 são brancos. Já entre os 10% mais pobres, a proporção se inverte: 8 a cada 10 são negros.
Além da diferença média no salário, há mais trabalhadores negros sem carteira assinada que brancos — 21,8% e 14,7%, respectivamente. A desocupação desagregada por cor de pele também mostra que a taxa das pessoas que se declaram brancas (9,5%) é bem mais baixa que a das que se declaram pretas (14,5%) e pardas (13,6%).
Já entre os índices de educação, os negros também estão abaixo. Apenas 8,8% da população negra com mais de 25 anos frequentou uma faculdade. Para a população branca, esse índice é de 22,2%.
Azeredo destaca que, nos últimos anos da história do país, políticas afirmativas, como cotas em serviços públicos e universidades, foram feitas para tentar diminuir as desigualdades raciais e tornar a entrada de negros no mercado de trabalho mais igualitária. Mas ainda não é possível perceber uma redução na diferença do rendimento médio de brancos e negros.
“Pelo menos nas últimas duas décadas, não percebemos uma redução nessa diferença salarial”, afirma. “A desigualdade já é muito cultural no país.”

Experiências negativas no mercado de trabalho


Mesmo quando conseguem ter acesso à educação e se inserir no mercado de trabalho, porém, negros relatam situações de dificuldade por conta de preconceito, mostrando um outro lado da desigualdade cultural a que Azeredo se referiu — aquela que diz respeito não apenas às desigualdades sociais a que negros vivem no país, mas a que reforça estereótipos e racismos.
Willian Carvalho, de 21 anos, conta que conseguiu chegar à faculdade “resistindo” contra esses preconceitos. O estudante, que mora com a família em Perus, bairro da periferia da Zona Norte de São Paulo, diz que gosta de arquitetura e arte desde os 13 anos.
Um primo arquiteto já tinha lhe alertado que seu caminho profissional não seria fácil. “O que me deixava mais triste é por ele sempre reforçar: ‘não vai ser fácil porque você é negro’.”
Hoje, anos depois, ele entende o que seu primo queria dizer. “Criei minha empresa e comecei a pegar projetos. Mas tive a maior dificuldade, pois, quando falava com cliente por e-mail, era uma coisa. E aí quando eu chegava e eles viam que eu era negro, mudava completamente a atitude. Aquela educação formal caía”, diz.
Segundo ele, sua maior dificuldade no mercado de trabalho é provar que é capacitado.

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